Tempo

E hoje ela canta: Gostava tanto de você

Essa não é uma história de um amor que mudou de cidade, de Estado ou País, mas, é de um amor que permanecerá para sempre no peito apesar daquele alguém ter ido embora desta longa caminhada que chamamos de vida. É tudo tão imprevisível. Acreditamos ter o controle do tempo, e então, em segundos ele nos mostra que não. Vivemos nossos dias planejando um amanhã, fazemos planos para se realizar anos mais tardes, nos preocupamos com o que virá no próximo mês, porém nos esquecemos que o dia de hoje é o ponto inicial que marcará nossa história para sempre, e de todos que nos rodeiam, até porque, o que fazemos enquanto temos vida, ecoará por toda a eternidade.

16380e62ab85da6dd691ff1322b80064Eles já se conheciam desde criança. Ela morava no portão laranja no fim da rua, e ele era o menino que adorava brincar de se esconder em derredor da casa dela. Aos doze anos ele se mudou e se foi para quilômetros longe dela. O que até então não sabiam era que ali já havia nascido um belo sentimento. E o tempo foi passando e tudo ficou guardado nas lembranças. Treze anos depois ele voltou a aquela cidade para visitar os velhos amigos. Engraçado como as coisas são, ele nem sequer sabia como ela estava, se ainda morava ali, mas lá no fundo de seu coração havia uma esperança de reencontra-la. E quando é para ser, é claro que o destino dá um jeitinho gostoso de fazer tudo acontecer.

364bb7f23d4fdf4b2b74235daedc9aaaAssim que chegou, parou numa nova lanchonete que até então não conhecia para comer alguma para poder procurar por toda aquela gente de seu passado. E com um lindo sorriso, cabelos loiro e longos, uma bela moça se aproximou e o cumprimentou. Subitamente notaram que aquele olhos de jabuticabas dele eram familiar, assim como aquele cabelo da cor do sol que ela tinha. Ela havia se tornado em uma linda mulher, formada em Administração, abriu uma rede de lanchonete na cidade, e justo naquele dia ela estava gerenciado aquela onde o velho amor reapareceu. Foi uma emoção inexplicável. Que abraço cheio de coisas boas deram. Todos que ali estavam puderam reparar em como o ambiente ficou possuído de harmonia. Não, este amor não era moderno, tecnologia naquela época só do telefone sem fio, mas o amor que vinha dentro do peito, distância alguma conseguia apagar.

7e496b77c9c07c3665b00c3140e77215É claro que aquele sentimento era real, mas tão real que eles haviam esperado quase toda sua vida para se reencontrarem. E então, daquele dia em diante decidiram viver o amor. Ele aproveitou toda suas férias do escritório para estar com ela. Voltou para sua cidade, e vinha vê-la aos finais de semanas – quando não ocorriam os famosos imprevistos – e assim foi até ficarem noivos. Casaram e viram cincos belos anos ao lado um do outro. Aquele amor de criança foi verdadeiramente intenso. E então, um certo dia ele precisou viajar a trabalho, e tudo estava bem até ligarem com a notícia de que o carro do Advogado havia entrado em colisão com outro, e tragicamente, todos morreram. A história de infância se quebrou, e os oitos anos juntos se transformou em lágrimas. Eu queria muito estar naquele momento ao lado dela para cuidar de sua dor. A morte havia separado quem se amavam tanto. Ele era tão jovem. Tudo ficou sem cor imediatamente. E cada espaço daquela bela casa que construiriam, a fazia lembrar dele. Três semanas se passaram, e me lembro vagamente dela cantando aquela canção que dizia:

“Nem sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristezas vou viver
E aquele adeus, não pude dar
Você marcou em minha vida
Viveu, morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão, que em minha porta bate. E eu
Gostava tanto de você […]”

Aquilo me trazia tristeza e ao mesmo tempo paz, assim como até hoje. E quando eu disse que o que fazemos enquanto vivos ecoa por toda a eternidade, de fato é verdade. Ela descobriu semanas mais tardes que esperava um bebê daquele eterno amor, e sempre cantava aquela canção para aquele ser que crescia dentro de si. Foi uma mistura intensiva de tristezas e alegrias. E hoje escrevo, aos meus vintes anos, sobre a história desse casal que Deus me deu como pais. Não tive a oportunidade de conhece-lo, mas minha mãe sempre falava dele com tanto ardor e saudades e eu pude entender que o amor de verdade existe. Queria que meu pai pudesse saber que todo seu esforço para estar junto de mamãe valeu apena, que seus valores me alcançaram, que sua dignidade está em cada um de nós. É certo que a dor é inevitável, e a morte mais ainda. Mas eu aprendi, desde muito pequena que, temos de aproveitar o hoje como se não houvesse um amanhã, o momento é feito para celebrar. Porque, se soubermos que não existirá um amanhã, viveríamos com mais calma, trabalharíamos menos, e cuidaríamos mais de quem está ao nosso lado. Mamãe não se casou de novo, e hoje aos seus cinquenta e dois anos a vejo feliz, carregando no peito somente lembranças boas daquele jovem amor que se foi cedo demais. E sempre que o peito aperta, a ouça cantar essa música que ora me traz aquela paz, ora me faz chorar [….] Pai, ela gostava tanto de você.

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Para finalizar, agora escrevendo como Jhenni, quero dizer algo mais real do que esta história que criei: Celebre a vida. Não espere o amanhã para amar, abraçar, perdoar. Não permita que a correria do dia-a-dia, brigas desnecessárias ou entre outras coisas te faça esquecer de quem te ama e de quem você ama. Não espere a morte levar alguém especial para reconhecer o valor que ela tinha para você. Pois, por mais que saibamos que a vida é passageira, nunca estaremos prontos para perder alguém. Marque sua história, marque a história de todos que estão contigo. Somente as lembranças dirão o quanto tudo valeu.

Tempo certo

 

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